Survodutide, retatrutide, orforglipron: a próxima geração após Mounjaro

Survodutide, retatrutide, orforglipron: as moléculas que poderão superar Mounjaro já estão em ensaios clínicos avançados.

Enquanto o tirzepatida (Mounjaro/Zepbound) revolucionou o tratamento da obesidade com sua dupla ação GIP/GLP-1, a pesquisa farmacêutica não para. Várias moléculas de nova geração estão em desenvolvimento, prometendo resultados ainda mais impressionantes. Um panorama dos tratamentos que poderão redefinir o manejo da obesidade nos próximos anos.

Survodutide (Boehringer Ingelheim): o agonista triplo glucagon/GIP/GLP-1

A survodutida representa a evolução lógica do tirzepatida ao adicionar um terceiro mecanismo: a ativação dos receptores do glucagon. Onde o tirzepatida visa dois hormônios (GIP e GLP-1), a survodutida visa três. A adição de glucagon estimula a lipólise e a termogênese, acelerando a queima de gorduras armazenadas.

Os resultados do estudo de fase 2, publicados no New England Journal of Medicine em 2024, são notáveis: uma perda de peso média de 18,7% em 46 semanas na dose de 4,8 mg. A molécula também mostra benefícios significativos na esteatose hepática (NASH), com uma redução do conteúdo de gordura hepática de mais de 80% em alguns pacientes.

Os ensaios de fase 3 (programa SYNCHRONIZE) estão em andamento e podem levar à autorização de comercialização já em 2027. A survodutida poderá se tornar o tratamento de referência para pacientes que apresentam obesidade e esteatose hepática grave.

Retatrutide (Eli Lilly): o agonista triplo do mesmo fabricante de Mounjaro

A Eli Lilly, fabricante do tirzepatida, também está desenvolvendo o retatrutida, outro agonista triplo GIP/GLP-1/glucagon. Os resultados da fase 2 publicados no New England Journal of Medicine (2023) causaram sensação: uma perda de peso média de 24,2% em 48 semanas na dose mais alta (12 mg). Este é um recorde absoluto para um tratamento medicamentoso anti-obesidade.

Para colocar esses números em perspectiva, o tirzepatida atinge cerca de 20-22% de perda de peso no mesmo período. O retatrutida oferece, portanto, um ganho adicional de 2 a 4 pontos percentuais, o que pode representar vários quilos adicionais para os pacientes.

O programa de fase 3 (TRIUMPH) começou em 2024 com ensaios envolvendo mais de 40.000 participantes. Se os resultados confirmarem a fase 2, o retatrutida poderá obter sua autorização em 2028-2029. A Eli Lilly se posicionaria assim com duas moléculas complementares: o tirzepatida para uso amplo e o retatrutida para os casos mais graves.

Orforglipron (Eli Lilly): a revolução da pílula para emagrecer

Todos os tratamentos GLP-1 atuais são injeções. O orforglipron poderá mudar o jogo ao oferecer um agonista GLP-1 na forma de comprimido oral de uso diário. Esta inovação responde a um dos principais obstáculos à adoção de tratamentos anti-obesidade: o medo de injeções.

Os resultados da fase 2, publicados no New England Journal of Medicine (2023), mostram uma perda de peso de 14,7% em 36 semanas na dose de 45 mg. Embora ligeiramente inferior aos injetáveis, este resultado é considerável para um tratamento oral. O perfil de tolerância é comparável aos agonistas GLP-1 injetáveis, com náuseas transitórias como principal efeito colateral.

O estudo de fase 3 (ATTAIN) está em andamento com mais de 10.000 pacientes. O orforglipron poderá ser aprovado já em 2026-2027. Sua chegada ao mercado democratizaria o acesso aos tratamentos GLP-1, eliminando a barreira psicológica e logística da injeção.

Amycretin (Novo Nordisk): a resposta do concorrente

A Novo Nordisk, fabricante de Ozempic e Wegovy, não permanece inativa. A amycretin combina o GLP-1 com a amilina, um hormônio pancreático que aumenta a saciedade. Os primeiros resultados da fase 1 mostraram uma perda de peso de 13,1% em apenas 12 semanas, o que projeta um potencial de 25% ou mais em um ano.

O CagriSema, outra molécula da Novo Nordisk que combina semaglutida com cagrilintida (análogo da amilina), demonstrou na fase 3 uma perda de peso de 22,7% em 68 semanas, superando a semaglutida sozinha. Esta estratégia de combinação ilustra a tendência para terapias multi-alvo cada vez mais eficazes.

Pemvidutide, bimagrumab e outras abordagens inovadoras

Outras moléculas exploram vias diferentes. O pemvidutida (Altimmune) é um agonista duplo GLP-1/glucagon que visa especificamente a esteatose hepática. O bimagrumab é um anticorpo monoclonal que bloqueia os receptores de activina, promovendo o ganho de massa muscular e a perda de gordura simultaneamente — um Santo Graal no tratamento da obesidade.

A pesquisa também explora abordagens não hormonais, como moduladores do microbioma intestinal, terapias genéticas que visam as vias de regulação do peso e nanopartículas de entrega direcionada. Essas vias, ainda em estágio pré-clínico, poderão transformar o manejo da obesidade na próxima década.

Tabela comparativa das moléculas em desenvolvimento

Aqui está uma comparação das principais moléculas em pipeline, com base nos dados clínicos disponíveis:

Molécula Mecanismo Via Perda de peso Fase Lançamento estimado
Tirzepatida (ref.) GIP/GLP-1 Injeção semanal 20-22% Comercializado Disponível
Retatrutida GIP/GLP-1/Glucagon Injeção semanal 24,2% Fase 3 2028-2029
Survodutida GLP-1/Glucagon Injeção semanal 18,7% Fase 3 2027
Orforglipron GLP-1 Comprimido oral 14,7% Fase 3 2026-2027
CagriSema GLP-1/Amilina Injeção semanal 22,7% Fase 3 2026
Amycretin GLP-1/Amilina Comprimido oral ~25% (proj.) Fase 2 2028+

O que isso significa para os pacientes atualmente em uso de Mounjaro

Se você está atualmente em uso de tirzepatida, esses avanços são uma excelente notícia. O tirzepatida permanece o tratamento de referência em 2026, com a melhor relação benefício/risco entre as opções disponíveis. As moléculas em desenvolvimento oferecerão, a longo prazo, mais escolhas e opções potencialmente ainda mais eficazes.

Enquanto isso, o importante é maximizar os benefícios do seu tratamento atual, combinando o tirzepatida com uma alimentação equilibrada, atividade física regular e acompanhamento médico rigoroso. O aplicativo MounjaGO ajuda você a acompanhar seu progresso e a preparar suas consultas médicas com dados precisos.

FAQ: Próxima geração após Mounjaro

O retatrutida estará disponível na França?
Os ensaios de fase 3 incluem centros europeus. Se os resultados forem positivos, uma solicitação de AMM (Autorização de Introdução no Mercado) europeia está prevista para 2028. A disponibilidade na França dependeria então da avaliação pela HAS (Haute Autorité de Santé) e das negociações de preços.

É possível mudar de Mounjaro para um tratamento de nova geração?
Sim, as transições entre tratamentos GLP-1 são possíveis sob supervisão médica. Seu médico avaliará se um novo tratamento oferece uma melhor relação benefício/risco em sua situação específica.

O orforglipron oral será tão eficaz quanto as injeções?
Os dados da fase 2 mostram uma eficácia ligeiramente inferior (14,7% vs 20-22% para os injetáveis). No entanto, para pacientes que não toleram injeções, é uma alternativa promissora com resultados significativamente superiores aos tratamentos orais existentes.